O comércio pode ser justo?

O comércio internacional dos dias atuais, pautado no modo de produção capitalista, assim como já ocorre há décadas, gera desigualdades não somente entre nações, mas também entre setores da economia cujo acesso restrito à informações e a novas tecnologias limita o seu desenvolvimento. Como forma de reduzir esse distanciamento, ao longo da história da humanidade foram criados alguns mecanismos para proteger os pequenos produtores e comerciantes e proporcionar-lhes chances mais igualitárias de competição. Abordagens econômicas como o associativismo, o crédito solidário, o cooperativismo e o comércio justo são algumas das tentativas de democratizar as oportunidades no sistema comercial vigente.

O cooperativismo aliado aos princípios do comércio justo (fairtrade) tem sido uma das alternativas mais utilizadas por pequenos produtores rurais nos países em desenvolvimento. O comércio justo é uma parceria comercial que visa garantir ao pequeno produtor uma melhor participação no valor comercializado das suas mercadorias e proporcionar melhores condições sociais para ele e sua família. No Brasil, apesar de ser uma ferramenta pouco explorada, o comércio justo aos poucos vem despertando o interesse de cooperativas e grupos de pequenos produtores organizados. No país há poucos produtores certificados se comparado com outras nações da América Latina.

Com o intuito de acessar mercados antes monopolizados pela comercialização convencional, muitas cooperativas têm buscado certificadoras internacionais para avalizar os seus produtos. São variados os motivos que levam um grupo de produtores a buscar uma certificação internacional para os seus produtos. As questões mercadológicas, juntamente com a maior visibilidade do produto e da organização, podem ser consideradas fortes motivadores para a inserção no mercado justo certificado. Ao redor do mundo as vendas sob essa modalidade alternativa de comércio têm aumentado significativamente nas últimas duas décadas.

Além dos ganhos financeiros proporcionados por um canal de distribuição internacional, a certificação agrega valor ao produto e a organização envolvida. Com as mudanças nos hábitos de consumo, os clientes estão cada vez mais exigentes com relação a qualidade dos produtos. Nota-se um aumento no consumo de alimentos orgânicos devido a sua associação com uma alimentação saudável e nutritiva. Pesquisas revelam que esses mesmos consumidores conscientes podem estar dispostos a pagar um valor maior por mercadorias produzidas de forma social e ambientalmente responsáveis. Eles também não hesitariam em boicotar empresas consideradas irresponsáveis e injustas nas relações com seus fornecedores, trabalhadores ou o meio ambiente.

Assim, certificadoras internacionais visam dar ao consumidor final uma maior segurança com relação a procedência dos alimentos. Um produto certificado tende a ser mais facilmente aceito por um mercado mais exigente, mesmo que o seu preço de venda seja mais elevado que um produto convencional. Contudo, obter tal certificação de um produto ainda é um processo exaustivo que exige bastante dedicação por parte dos membros da cooperativa que pleiteia o selo. É preciso simplificar o processo, somente assim estaremos dando oportunidades para que os pequenos produtores dos países pobres podem ter alguma chance na competição com o agronegócio, tornando a disputa entre Davi e Golias um pouco menos desigual.

Fabiano Santana dos Santos – Doutor em Serviço Social e coordenador do curso de Administração, na Universidade Federal de Alagoas, campus Arapiraca.

Deixe uma resposta